
| Through the wild cathedral evening the rain unraveled tales |
| For the disrobed faceless forms of no position |
| Tolling for the tongues with no place to bring their thoughts |
| All down in taken-for-granted situations |
| Tolling for the deaf an' blind, tolling for the mute |
| Tolling for the mistreated, mateless mother, the mistitled prostitute |
| For the misdemeanor outlaw, chased an' cheated by pursuit |
| An' we gazed upon the chimes of freedom flashing. |
| Por toda a noite, qual igreja selvagem, a chuva descortinava histórias |
| Para os seres deslocados, sem rosto e sem agasalho |
| Os sinos dobravam para as bocas sem lugar para serem ouvidas, |
| Sempre inferiorizadas com essa situação assumida |
| Os sinos dobravam para os surdos e cegos, dobravam para os mudos, |
| Dobravam para os mal tratados, mães solitárias e prostitutas |
| Para os proscritos, caçados e derrotados pela captura. |
| E olhamos, maravilhados, o cintilar dos sinos da liberdade. |
O mensageiro não era muito simpático. Tinha sido identificado para além de qualquer dúvida, mas eu não conseguia deixar de atacar o que ele dizia, por mais que soubesse que as ordens vinham de cima, e que ele era um mero portador. Talvez, no fundo, ele tivesse algum motivo para tanta lorota : José e Rubens checaram todas as suas afirmações e credenciais, numa verdadeira entrevista de iniciação. Mas isso era de se esperar. Afinal de contas, estávamos em guerra. Só o inimigo é que não parecia estar convencido disso.— Eu não ouvi falar de nenhuma Catedral. Acho estranho não ter aparecido nenhuma por aqui.
— Elas não vêm para o campo, explicou Maia, o emissário. É perto das cidades que elas são necessárias, porque é lã que há fome e doenças. Normalmente, aterrissam em praças centrais, destruindo um edifício aqui, outro acolá. E as pessoas acampam ã sua volta, visitando os alvéolos diariamente. De alguma forma, elas saem de lá alimentadas. Já os doentes entram dentro delas, e os que voltam — que não são todos não se lembram de nada do que aconteceu, embora estejam curados.
— Estão minando a resistência, observou José.
— Se houvesse fome, talvez houvesse revolta, concordou Maia. Alguns dos nossos camaradas tentaram boicotar o movimento, espalhando boatos de que a comida fazia mal. Até envenenamos algumas pessoas, mas não fez muito efeito. Os envenenados iam se curar nas Catedrais. E quando aumentamos a dose do veneno para afastar a possibilidade de socorro, alguns frouxos do Comando mandaram parar com a experiência.
Senti como se tivesse sido envenenado pelo ouvido. O mensageiro coçou a barba, entre pensativo e ansioso.
— O caso, Sérgio, começou ele de novo, é que temos que saber mais sobre os Sineiros. Estamos o tempo todo lutando no escuro, sem informações. De repente, é só descobrir o que pode matar estes bichos. Vi uma vez um filme em que uns monstros eram mortos por um som especifico. Quem sabe descobrimos um meio?
Era para rir, se eu não estivesse com vontade de chorar. Tive uma visão de entrar numa Catedral, fosse ela como fosse, usando duas muletas e carregando nas costas um teclado eletrônico, destes que imitam qualquer som e que eu sempre quis comprar, num tempo em que o mundo era mundo. Hoje, lampiões e fogueiras iluminando a noite, a idéia me trouxe lágrimas aos olhos.
— Tudo bem, Maia, mas quais os planos ? Dizemos que estamos doentes, vamos lá para dentro de uma das Catedrais, e depois fazemos o que ?
— Talvez nos tornemos iluminados — sugeriu Fábio.
— Ou cobaias, lembrou Bráulio. Afinal de contas, não vamos estar doentes, e eles podem nos matar tentando descobrir o que temos de errado...
— Alguma coisa certamente você deve ter, observou José, com cara de entendido.
— Não se preocupem — sossegou-os o miserável do estranho — tenho aqui o material para vocês.
E rapidamente começou a tirar de uma pasta uma quantidade enorme de objetos, explicando seu uso com uma orgulhosa satisfação.
— Este gravador deve ser ligado logo que entrarem. Este outro, emite todas as freqüências de som que pudemos gravar. Fica a critério de vocês quando tocar. Estas cápsulas contêm bactérias...é conveniente só abrir quando vocês estiverem voltando. Isto aqui são mini-bombas incendiárias. Aqui, temos uma pequena jóia : uma ampoIa de liquido refrigerante, que no contato com o ar baixa a temperatura do objeto em que bater para dez graus negativos. O efeito não dura muito, mas pode ser o suficiente. Isto é um chicote elétrico, que...
E o homem continuou discorrendo sobre uma infinidade de bugigangas, sem no entanto explicar como continuaríamos vivos após a incursão. Os outros deviam estar com a mesma preocupação, pois não faziam perguntas. Apenas olhavam com aborrecimento e raiva.
— E não se esqueçam, não demonstrem que se conhecem, nem distribuam totalmente o equipamento. Vocês devem entrar juntos, mas alguns devem ter a aparência de inocentes, para maior garantia de que tenhamos de volta as informações.
O delírio continuava. Tudo parecia uma criação de maluco, uma tentativa desesperada e bisonha de obter o que nossos cientistas não conseguiram, nos meses em que a civilização e seus recursos ainda existiam.
— A Catedral mais próxima é a do Rio de Janeiro, no Passeio Público. Como vocês ainda têm combustível, não deve ser difícil chegar lá. As estradas estão desertas, mas o centro da cidade está intransitável. O povo está usando os carros como residência.
— Deve estar tudo uma sujeira só, comentou Miranda.
— Você nem calcula quanto, irmão. Mas agora, o melhor da festa. Olhem para isto!
E Maia mostrou uma caixinha com mais de quarenta ampolas de vidro minúsculas. Tirando uma delas, admirou-a teatralmente à luz do lampião.
— Duas horas após vocês ingerirem o conteúdo de uma destas bichinhas, vocês vão sentir dores abdominais muito fortes, acompanhadas de febre e muito suor. Uma hora depois, não sentirão mais nada. Isto dará a vocês a entrada para a Catedral do Rio!
Comecei a me sentir doente por antecipação. E também muito infeliz. Os tempos que passamos escondidos foram muito bons. Três semanas de muita camaradagem, muito papo jogado fora mas que tinha ficado. E agora tínhamos que vestir de novo a ideologia e continuar nossa guerra. Talvez até, com mais algum tempo, eu tivesse conhecido melhor aquela garota. Mas tudo era história. O sonho de Adão me chamava.
Pelo resto da noite, o Maia conseguiu tornar o grupo mais coeso na sua aversão por ele. Dono da verdade, monologou horas sobre assuntos que de outro modo não seriam chatos.
Fomos dormir e combinamos sairmos no dia seguinte, após o almoço. A noite foi agitada, e recebi a visita de alguns dos meus pesadelos mais habituais. Os outros também não tiveram uma boa noite. De vez em quanto, ouvia vozes no meio de sonhos.
No dia seguinte, acordei com o sol e percorri a mata mais próxima, no caminho para a cachoeira onde tantas vezes nos banhamos, me despedindo do verde. Não tive nem vontade de tomar a sopa espessa que forrou o estômago do pessoal para a viagem. Maia se despediu de nós, e saiu barulhentamente com a sua moto. Pedi ao Miranda que conferisse os mantimentos e os equipamentos fornecidos para a nossa aventura.
Já descendo a serra rumo ao Rio, Miranda comentou, bem humorado:
— Não vai tão depressa, Sérgio. Assim você acaba alcançando o Maia.
— Não tem perigo, respondi. Ele vai dobrar para o Sul ali adiante. Já deve estar quase lá.
— Tudo bem, mas ele vai ter que parar daqui a pouco.
Olhei para ele, curioso. E recebi a explicação.
— Você sabe, temos muito material. Você viu quanto ele nos deu. Não conseguiu evitar de colocar uns cinco frasquinhos de cólica na sopa dele...
Descemos a serra de ânimo leve.
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