Porque Chimes of Freedom?

Ouvi Chimes of Freedom pela primeira vez em 1966, na gravação da banda The Byrds. Na época, dei mais atenção a "Mr. Tambourine Man", canção que era, ao mesmo tempo, carro-chefe e título do álbum. Só após ouvir o LP (lembram de LP, nesses tempos de CD, DVD e mp3?) algumas vezes é que comecei a valorizar a música que é objeto dessas páginas.

Os Byrds tentavam ser a contrapartida californiana aos Beatles e apresentavam um som bem característico, seja pelo vocal afinadíssimo, seja pela guitarra de 12 cordas tocada por Roger McGuinn, algo não muito comum nas bandas de rock da época, seja pela releitura que faziam da música de Bob Dylan.

Confesso, portanto, que conheci Bob Dylan pelas gravações dos Byrds. Uma coisa, todavia, me chamou a atenção. A qualidade e, porque não dizer, o estranhamento das letras de Bob Dylan.

Se pensarmos que Chimes of Freedom foi escrita em 1964 e que, nesse ano, os Beatles tinham lançado "A Hard Day's Night" e "Beatles for Sale", mesmo para minha cabeça adolescente e que curtia os 4 de Liverpool, a mensagem da letra era muito diferente e até estranha.

Foi meu primeiro contato com a música de protesto americana, de raízes "folk", da qual nomes como o próprio Bob Dylan e Joan Baez, entre outros, eram os profetas. Isto é relevante, na medida em que as primeiras tropas americanas desembarcaram no Vietnam em 1965, o que veio a ensejar os protestos antibélicos que se espalharam por todos os Estados Unidos. A letra da canção chegou a ser considerada um hino contra a guerra e uma exaltação à paz e à harmonia entre os homens.

A natureza da letra de Chimes of Freedom, simbolista e onírica, chamou minha atenção, mesmo que eu não conseguisse entender a pronúncia dos Byrds.

Corte para 1987. Passados 20 anos, eu já havia aprendido a gostar de Bob Dylan e conheci Bráulio Tavares, escritor, compositor, cantor e muito mais, que me emprestou uma biografia de Bob Dylan, com as letras de suas músicas. Foi a primeira vez que pude ler, por completo, a letra de Chimes of Freedom e passei a apreciá-la ainda mais.

Como fazíamos parte de um grupo que se reunia, uma vez por mês, para papear sobre literatura fantástica (não confundir com esotérica ou ufológica, por favor), lancei a idéia de escrevermos um conto seqüencial (em inglês "round-robin"), baseado em Chimes of Freedom, onde cada um de nós era encarregado de escrever uma parte, baseado numa estrofe, o próximo continuaria no ponto que o primeiro acabou, e assim por diante. E isso foi feito e publicado no "fanzine" SOMNIUM, do Clube de Leitores de Ficção Científica (ao lado, a capa da edição que publicou a primeira estrofe do conto, advertindo que a ilustração não se refere ao mesmo), em várias edições.

Novo corte, desta vez para 2003. Sala de chat do UOL, uma mulher de apelido (nick) "Zerinha" começa a falar de Bob Dylan. Imediatamente me veio à mente Chimes of Freedom e perguntei se ela conhecia. Segundo ela, era canção para iniciados.

Foi a semente que me levou a digitalizar os exemplares do SOMNIUM que continham o conto (lembrando que em 1988 "scanner" era um luxo e, assim mesmo, para computadores de médio e grande porte).

Conhecendo o porque, vejamos agora como o conto será apresentado.

[topo da página]