
| Starry-eyed an' laughing as I recall when we were caught |
| Trapped by no track of hours for they hanged suspended |
| As we listened one last time an' we watched with one last look |
| Spellbound an' swallowed 'til the tolling ended |
| Tolling for the aching ones whose wounds cannot be nursed |
| For the countless confused, accused, misused, strung-out ones an' worse |
| An' for every hung-up person in the whole wide universe |
| An' we gazed upon the chimes of freedom flashing. |
| Olhos brilhando e sorrindo, lembro de como ficamos parados |
| Sem sentir o passar do tempo, que para nós ficou congelado |
| Ao escutarmos ainda uma vez mais, ao darmos uma última olhada |
| Tomados pela emoção, nó na garganta, até o fim do soar dos sinos |
| Que dobravam para os feridos sem quem cuide de suas chagas |
| Para os incontáveis acusados, |
| E para cada pessoa impedida em todo este vasto mundo |
| E olhamos, maravilhados, o cintilar dos sinos da liberdade. |
Estávamos agachados junto à mureta do Viaduto dos Arcos, que fica próximo à Catedral. De longe, toda ela parecia brilhar, como uma cesta de vime rodeando uma lâmpada muito forte, como uma colméia de luz. Seu brilho clareava as pistas de asfalto vazias. Não havia lua no céu e a Catedral era o único edifício onde se via luzes acesas.Fiz um gesto, todo o grupo se ergueu, armas na mão. Fomos caminhando por entre o mato que cobria os trilhos enferrujados até que chegamos às ruínas da estação de bondes. Havia fogueiras acesas, dezenas de macas com velhos gemendo em cima, uma meia dúzia de mulheres cansadas que tentavam atender uma parte deles; mal nos olharam. Separamo-nos mais adiante; tínhamos que tentar entrar cada um por si; daí a exatamente trinta minutos, os que tivessem conseguido entrar deviam começar a fazer o maior estrago possível.
Dei um tempo parado junto a um caminhão em cima do qual ressonavam algumas famílias.
Depois fui me aproximando da Catedral. Pelas informações que tínhamos, havia guardas em volta dela: Iluminados armados até os dentes. A maioria usava fardas — um mínimo de simbologia terrestre da qual não tinham conseguido se livrar. Eu também vestia meu casaco do Exército; não que significasse alguma coisa, mas os invernos tinham sido uma barra ultimamente. Vai ver que era por causa deles também.
Fui chegando perto da Catedral, com um passo descansado, como se tivesse saído para fazer uma ronda e estivesse voltando. Havia um grupo de meia dúzia em redor de uma fogueira, me aproximei, pus a escopeta aos meus pés, estendi as mãos para esquentá-las; passei um olhar severo pelo grupo, para dar a impressão de que estava procurando algum penetra. Mas nem foi preciso. Eles não me olhavam, olhavam para a lenha em chamas como se estivessem vendo ali um espelho.
Um deles estava mais lúcido, agachou-se, encheu duas canecas de café, ofereceu-me uma, bebi devagar. Pousei a caneca no chão, bati com as mãos nos bolsos do casaco, ele me ofereceu um cigarro, acendi, dei-lhe um tapinha no ombro, pus a arma debaixo do braço, e sai fumando, entediado, dei um bocejo sincero. Daí a cinqüenta e cinco passos eu cruzava a porta da Catedral.
Estava aberta de par em par, e sem ninguém, de modo que achei muito estranho; mas o jeito foi entrar. Isto e como salto ornamental, pensei, você salta, aí la´ vem aquela parede verde se aproximando e a única escolha que resta é decidir como você vai entrar ali. Eu entrei devagar e me vi no interior de um amplo espaço, um tronco de cone oco. Na face interior de suas paredes havia passadiços de madeira, estreitos, uns sobre os outros, como prateleiras de estante; ao longo de cada um havia, penduradas em suportes metálicos, coisas que pareciam mapas, mas eram rígidos, e cobertos de pontos de luz; diante de cada um deles havia uma ou duas pessoas, de pé, movendo apenas os braços e os dedos que apertavam contatos naquela superfície. Meu olhar circunvagou pelo interior da imensa estrutura, eram talvez milhares de pessoas enfileiradas diante daqueles mostradores; vai ver que estavam servindo de relés para alguma corrente de comandos informáticos...minha mão foi até o cinto e tocou o cantil, que estava cheio de mini-bombas incendiárias. Se eu conseguisse atear fogo ao passadiço mais baixo, as chamas sem dúvida atingiriam logo o segundo, e daí o terceiro...
Tudo isso durou na minha mente um segundo, quando meus olhos, desviando-se do objeto insuportavelmente luminoso que estava no centro da Catedral, perceberam os passadiços na face interior da colméia. Apertei as pálpebras, e o resíduo do clarão foi se esvaindo. Abri os olhos novamente.
O brilho do objeto tinha diminuído. Ia diminuindo a olhos vistos. Logo surgiram uns contornos, depois uma imagem difusa, depois uma imagem nítida, e por fim surgiu ali, no centro de um amplo espaço vazio, uma nave-carrilhão, só que menor, uns três metros de comprimento apenas, mas perfeita, idêntica em cada detalhe, a fuselagem alongada e pontuda, brilhando metálica, cheia de luzes que piscavam, suspensa a meio metro sobre o chão de pedra, oscilando levemente.
Dei dois passos para diante, e ergui a arma. A nave começou a se mover.Começamos a andar, em círculos, em espirais, um ao redor do outro, eu avançando, ela a esquivar-se, um cercando o outro, como se eu fosse toureiro e ela touro, eu caminhando meio de lado, a arma ao ombro e o olho na mira, ela flutuando leve, como um ser esquisito, um ser que tivesse a mente de um felino no corpo de um tubarão. Mas eu não consegui atirar porque à medida que a nave ia se movendo ia se tornando transparente, transparente, como uma simulação holográfica; e através dela eu enxergava um círculo de pessoas que vinha silenciosamente se fechando em torno de nós dois; através da nave eu via os rostos, enquanto eles caminhavam muito devagar, estavam todos lá, Marcos, Renato, Miranda, lá está o Maia muito pálido, Bráulio, José, Rubens, Carlos Otávio...e aquela garota, cujo nome eu nunca dava jeito de lembrar. Vinham todos, olhando para mim com um olhar de pena, como se eu fosse o último de alguma coisa.
Ouvi a escopeta cair no chão. Foi o último som que ouvi.
Durante um tempo impossível de calcular eu me senti boiando num vácuo, no interior de uma bolha feita de silêncio absoluto e absoluta escuridão; eu me sentia imponderável, bracejava às cegas, gritava sem som; sentia as cordas vocais vibrando até quase a ruptura, mas nenhum som me chegava, era como se duas mãos incrivelmente densas estivessem tapando em concha os meus ouvidos.
Algo cruzou velozmente meu campo de visão, como um meteorito atravessando o nada. Meu corpo fez uma cambalhota quando tentei acompanhar aquilo com a vista, vi-o passar de novo, tentei outra vez, daí a pouco consegui ver aquilo passando horizontalmente da esquerda para a direita, logo passou de novo, e outra vez, procurei manter-me imóvel, aí passou de novo, parecia cada vez mais lento, e os intervalos eram cada vez maiores, até que foi passando mais lento, quase parando, aí girei o corpo para acompanhá-lo, e consegui. Fiquei imóvel, diante de uma estrela também imóvel que brilhava parada, lá, do outro lado daquele vazio infinito.
A estrela começou a crescer. Seu brilho aumentava, daí a pouco estava toda eriçada de raios, espalhava-se cada vez mais, ganhando contornos, ganhando forma esférica, crescendo a olhos vistos: era um planeta, sim, um planeta, já se agigantava, ampliava-se ocupando todo o espaço à minha frente, daí a pouco o horizonte da minha visão era ele, e eu me precipitava ao seu encontro, avistei sua superfície, aproximando-se e o que vi não tinha descrição; a superfície era uma massa viva, irregular, lembrei os domos de Trantor, lembrei as simetríades de Solaris, as nuvens de Vênus, as rugas de Marte, a acne da Lua, era um chão irregular e fervilhante sobre o qual eu agora flutuava; vi que aquela espuma borbulhante era composta de sinos, cujas bocas se voltavam para cima como se fossem olhos, e que se agitavam, sacudiam-se de um lado para o outro como se vergastados por uma ventania, e os seus badalos metálicos pareciam línguas modulando palavras, e aqueles milhões, bilhões de sinos falavam todos ao mesmo tempo, primeiro um som muito longínquo que soprava no vento, mas que ia crescendo, um mega-carrilhão, como se eu tivesse fones de ouvido despejando em meus tímpanos as vozes dos seres que habitavam aquele mundo, seres que eram sinos, eram agora quatro bilhões, cada qual com a sua voz, seu clangor e seu destino, olhando o céu de seu mundo, vendo-me chegar, vendo-me descer, iluminado, o último terrestre a retornar para o lugar de onde nossa raça tinha saído, um dia, sim, agora me lembro...
[topo da página]