Primeira estrofe

A primeira parte ou estrofe, como queiram, do conto foi escrita por Rubenildo Barros, um militar desempenhando função técnica, que criou o ambiente em torno do qual as outras partes seriam desenvolvidas. Imaginou um cenário, num futuro próximo, em que naves em forma de sinos chegaram até nosso planeta, sem atacar nenhuma cidade, mas mesmo assim trazendo conseqüências devastadoras para a civilização. A ação se desdobra na cidade do Rio de Janeiro e seus arredores.


Far between sundown's finish an' midnight's broken toll
We ducked inside the doorway, thunder crashing
As majestic bells of bolts struck shadows in the sounds
Seeming to be the chimes of freedom flashing
Flashing for the warriors whose strength is not to fight
Flashing for the refugees on the unarmed road of flight
An' for each an' ev'ry underdog soldier in the night
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing.
 
Bem depois do por do sol, antes do badalar pungente da meia noite
Nos atiramos pelo umbral da porta em meio a trovões que desabavam
Enquanto os sinos majestosos dos raios lançavam sombras nos sons
Como se fossem os sinos da liberdade cintilando
Cintilando pelos guerreiros cuja força está em não lutar
Cintilando pelos refugiados em seu caminho indefeso de fuga
E para cada soldado oprimido naquela noite
Olhamos, maravilhados, o cintilar dos sinos da liberdade.
O Conto
OS SINOS DA LIBERDADE
(primeira estrofe - Rubenildo Barros)

O mínimo que se podia chamar aquela noite, era de fantasmagórica. Ao nosso redor o céu vomitava trovões e relâmpagos como se o planeta inteiro sofresse de enjôo. Som e luz de tal forma se misturavam que cada clarão lançado pelos raios parecia projetar sombras sobre os sons dos trovões.

Nossa patrulha seguia um Iluminado que flutuava, acompanhando o movimento suave de uma nave-carrilhão pairando acima de nós. Aquilo contrastava com o furor da Natureza, como que ofendida por aquela aparente infração à Lei da Gravidade. Alheio a tudo, fechado em um universo próprio, o Iluminado vagava pelo ar, atendendo a um chamado que só ele ouvia, um boneco suspenso pelas mãos de um poder maior, que queríamos entender. Daí nossa presença seguindo aquele não-mais-humano.

De um lado Renato seguia, com sua câmara, os movimentos do Iluminado, enquanto do outro Marcos focalizava a nave-carrilhão, cujas luzes lembravam lâmpadas estroboscópicas. O som de carrilhões que a nave emitia, e que lhe dava o apelido, se misturava aos ruídos do vento, trovões e chuva.

— Chefe, olha! — gritou Renato.

A nave havia parado e suas luzes se tornaram mais brilhantes. O som de carrilhões aumentou de intensidade disputando, decibel a decibel, clarão a clarão, com a Natureza, a supremacia sobre nossos sentidos.

Eu já sabia o que estava prestes a acontecer e dei ordem para entrarmos na casa mais próxima. Carlos arrebentou a porta e nos lançamos umbral adentro, trovões desabando. Pela janela via-se o corpo do Iluminado vibrando e brilhando, como a querer acompanhar, ao mesmo tempo, o ritmo da nave e da tempestade. Bocas abertas, olhos esbugalhados, respiração presa, acompanhamos a transfiguração daquele corpo que se tornava luminoso, querendo romper as barreiras da carne e se juntar ao brilho da nave. Finalmente, num último clarão, a carne perdeu e o corpo, agora transformado em uma massa de luz suave e azulada, como uma nuvem luminosa, subiu lentamente em direção à nave que o recebeu como uma mãe recebe nos braços um filho correndo ao seu encontro. Após a fusão a nave lentamente acelerou e sumiu em meio à tempestade.

A voz embargada de Renato me chegou aos ouvidos.

— Parece até os sinos da liberdade brilhando.

Aquilo me fez o sangue subir.

— Não admito fanatismo! Já basta essa seita de fanáticos que acham que as naves são mensageiras de Deus escolhendo os que herdarão a Terra. Vou punir com rigor qualquer tentativa de transformar um fenômeno ainda não compreendido em religião. O planeta inteiro já está desorganizado demais e cabe a nós manter um mínimo de sanidade.

A verdade é que nem eu mesmo sabia mais o que pensar. Depois que os malditos alienígenas, ou sei lá o que são, chegaram, a civilização aos poucos se esfacelava.

— Renato, Marcos, gravaram tudo?

— Sim, chefe.

— Vamos voltar.

Pessoalmente sentia uma grande frustração. No fundo, gostaria de entender tudo aquilo. O que as naves queriam conosco, o que acontecia com os Iluminados, até onde tudo aquilo iria chegar. Era para tentar responder essas perguntas que estivéramos ali, seguindo o Iluminado e a nave. Depois que começamos a voltar, o som de carrilhões ainda ecoava em nossas cabeças, quem sabe, parecendo os sinos da liberdade, como Renato dissera, pelo menos para o que se tornara Iluminado.

[topo da página]