Segunda estrofe

A segunda estrofe ficou a cargo de José dos Santos Fernandes, médico, colecionador de livros e escritor de ficção científica, tendo publicado pela Editora GRD (Gumercindo Rocha Dória) o livro de contos "Do Outro Lado do Tempo".

In the city's melted furnace, unexpectedly we watched
With faces hidden while the walls were tightening
As the echo of the wedding bells before the blowin' rain
Dissolved into the bells of the lightning
Tolling for the rebel, tolling for the rake
Tolling for the luckless, the abandoned an' forsaked
Tolling for the outcast, burnin' constantly at stake
An' we gazed upon the chimes of freedom flashing.
 
Na fornalha derretida da cidade, olhamos inesperadamente
Rostos ocultos, as paredes como que querendo nos esmagar,
Enquanto o eco dos carrilhões confrontado com a chuva que assoviava
Dissolvia-se no som dos sinos dos relâmpagos
Os sinos dobravam para os rebeldes, dobravam para os torturados
Para os infelizes, abandonados e desamparados
Dobravam para os párias, sempre queimados na fogueira.
E olhamos, maravilhados, o cintilar dos sinos da liberdade.
O Conto
OS SINOS DA LIBERDADE
(segunda estrofe - José dos Santos Fernandes)

Não foi realmente uma surpresa para mim quando a noticia da deserção de Renato me foi trazida por Marcos. Eu já esperava por isto desde a noite do seu deslumbramento pela nave-carrilhão. Entretanto, não pude deixar de sentir-me um pouco triste ao pensar que um jovem talentoso e com ótimo futuro como Renato estava engrossando as hordas de débeis mentais que enchiam os campos e as praias à espera de serem "chamados".

— Você sabe para onde ele foi ? — perguntei.

— Parece que foi para uma fazenda aqui perto. Há quase um milhão de seguidores das naves acampados nos campos recém-arados da fazenda.

Andei de um lado para o outro no meu pequeno escritório, exasperado.

— O que será que estes malucos pensam que estão fazendo ? É a mesma coisa por toda parte; nas fazendas ninguém mais planta ou colhe, nas cidades ninguém produz mais nada. Será que eles esperam ser alimentados e vestidos por estes alienígenas, ou seja lá que diabo forem? Ou esperam que os palhaços que ainda não aderiram à sua seita continuem trabalhando eternamente para eles?

O olhar de Marcos e o eco da minha voz nas paredes fizeram com que eu percebesse o meu grau de exaltação. Sentei-me com a cabeça entre as mãos, os cotovelos apoiados na mesa, e suspirei

— Esta situação vai de mal a pior, Marcos. Onde isto tudo vai parar ? Eu estou me sentindo como se as paredes estivessem me esmagando e eu nada pudesse fazer e não tivesse para onde ir. Por que ninguém faz nada a respeito ? Nós vamos deixar eles chegarem assim, sem mais nem menos e acabarem com as nossas vidas ?

— Bem, chefe — falou Marcos — nem todo mundo está embarcando nesta onda de deslumbramento.

Levantei-me de um salto.

— Como? O que você está dizendo? Até o Exército tem ordens de só acompanhar os acontecimentos e não tomar atitude mais positiva.

— É verdade. — concordou Marcos.

— Então, homem, fale de uma vez. Você está querendo brincar comigo? Acho bom você dizer logo o que está escondendo.

Marcos aproximou-se da mesa com ares de conspiração e baixou a voz

— Já estão sendo organizados alguns grupos, chefe. Não tem nada a ver com o Exército, embora existam militares entre os seus membros. São pessoas que não acreditam nas intenções e na origem divina de quem controla as naves-carrilhão, desejam a volta do mundo à sua normalidade e estão dispostas a trabalhar e se arriscar em prol disto.

— Uma milícia civil?! Mas isto é totalmente ilegal, Marcos.

Marcos sorriu.

— Não, chefe. Não gostamos de pensar em nós mesmos como uma milícia civil. Preferimos o velho termo "Resistência".

A idéia me assustava, mas ao mesmo tempo me fascinava.

Eu teria de desertar para poder me ligar ao que Marcos chamava de Resistência, e isto me destroçava por dentro mas, por outro lado, alguém tinha que lutar pelo nosso direito de continuar a ser um mundo civilizado, em vez de nos tornarmos um bando de fanáticos babões implorando pela salvação.

— Pelo que você já me contou, é claro que você é membro ativo deste grupo. Você acha que eles aceitariam mais um participante ?

Marcos tornou a sorrir e estendeu a mão para mim.

— Claro que sim, chefe. Precisamos de todos que possam ajudar e a sua experiência vai ser de grande valia. Aperte aqui e eu o levarei hoje mesmo até os outros.

Apertei com força a mão de Marcos e ele deve ter sentido a minha pele fria e suada pela excitação.

A casa ficava num subúrbio e tinha um aspecto comum. Não houve senhas ou qualquer outro sinal de reconhecimento à nossa chegada. Marcos simplesmente bateu na porta, ela foi aberta e nós entramos. Umas 15 ou 20 pessoas já estavam reunidas em uma sala apenas mobiliada com uma mesa e várias cadeiras. Um homem que conversava junto a uma janela viu Marcos e veio até o centro da sala nos receber.

— Então, Marcos, trouxe mais um recruta hoje ?

Todos os olhos da sala me fitaram e eu me senti quase como se estivesse nu. O homem cumprimentou Marcos e estendeu sua mão.

— Eu me chamo Carlos Otávio. É um prazer tê-lo aqui.

— Sérgio Fernandes Carreiro de Barros Júnior. — respondi, apertando-lhe a mão É um prazer para mim também.

Carlos arregalou os olhos e soltou um assovio.

— Pela madrugada! Quantos vocês são, afinal? As risadas estouraram na sala.

Eu normalmente me irritava com as piadas sobre o tamanho do meu nome, mas naquelas circunstâncias eu também acabei rindo. Pelo menos alguém ainda mantinha o senso de humor, apesar de tudo.

Não houve burocracia para a minha admissão na Resistência, só exigiram de mim que guardasse silêncio quanto à organização e ao nosso trabalho. Eu passei a participar das reuniões e em poucos dias me confiaram a primeira missão.

A princípio, nada de novo para mim. Eu e Marcos nos misturamos aos fanáticos (agora perto da casa dos dois milhões) que lotavam as fazendas a uns 60 quilômetros da cidade e esperamos pela chegada de uma nave-carrilhão e pelo aparecimento de Iluminados, só que desta vez não levávamos câmaras de filmar e sim um lança-mísseis portátil. Foram cerca de dois dias e meio de espera mas ela finalmente surgiu, resplandecente no seu brilho, emitindo o som de sinos familiar a todos. A multidão foi tomada de um frenesi, todos louvando a nave e seus ocupantes e rogando para serem os escolhidos.

Em poucos minutos, o primeiro Iluminado ergueu-se da massa humana sobre a qual a nave passava pulsando e seguiu-a flutuando, o olhar parecendo ver o que ninguém mais podia. Quando seu corpo começou a brilhar e a nave parou, eu fiz sinal a Marcos para preparar a arma.

Ninguém na multidão frenética estava em condições de notar o que fazíamos e eu logo apontei o lança-mísseis e disparei o projétil direto ao bojo da nave-carrilhão. Preparamo-nos para a explosão mas o míssil foi apenas englobado pela nave e, a princípio, nada aconteceu. A sensação da derrota já me invadia quando um tremor percorreu as luzes do veiculo e o som de carrilhão pareceu vacilar. A nave tremeu e começou a subir em arrancos descontrolados, enquanto o Iluminado subitamente apagou e despencou sobre a multidão atônita.

— Vamos sair daqui, Marcos! — gritei, e comecei a me afastar rapidamente, aproveitando o aturdimento da turba.

A nave-carrilhão continuava a subir, sua luminosidade se expandia e os sons se tornavam mais ensurdecedores, já nada parecidos com um soar de sinos. Então, um grande clarão iluminou tudo num raio de vários quilômetros, acompanhado de um barulho como o de duas gigantescas mãos a baterem uma única grande palma, e a nave desapareceu.

— É — pensei, enquanto nos afastávamos — pelo menos estas naves não são preconceituosas. Hoje os "sinos da liberdade" não tocaram e brilharam apenas para seus Iluminados. Eles também brilharam para seus seguidores desamparados e para os rebeldes da humanidade.

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