
| In the city's melted furnace, unexpectedly we watched |
| With faces hidden while the walls were tightening |
| As the echo of the wedding bells before the blowin' rain |
| Dissolved into the bells of the lightning |
| Tolling for the rebel, tolling for the rake |
| Tolling for the luckless, the abandoned an' forsaked |
| Tolling for the outcast, burnin' constantly at stake |
| An' we gazed upon the chimes of freedom flashing. |
| Na fornalha derretida da cidade, olhamos inesperadamente |
| Rostos ocultos, as paredes como que querendo nos esmagar, |
| Enquanto o eco dos carrilhões confrontado com a chuva que assoviava |
| Dissolvia-se no som dos sinos dos relâmpagos |
| Os sinos dobravam para os rebeldes, dobravam para os torturados |
| Para os infelizes, abandonados e desamparados |
| Dobravam para os párias, sempre queimados na fogueira. |
| E olhamos, maravilhados, o cintilar dos sinos da liberdade. |
O Conto
OS SINOS DA LIBERDADE
(segunda estrofe - José dos Santos Fernandes)Não foi realmente uma surpresa para mim quando a noticia da deserção de Renato me foi trazida por Marcos. Eu já esperava por isto desde a noite do seu deslumbramento pela nave-carrilhão. Entretanto, não pude deixar de sentir-me um pouco triste ao pensar que um jovem talentoso e com ótimo futuro como Renato estava engrossando as hordas de débeis mentais que enchiam os campos e as praias à espera de serem "chamados".
— Você sabe para onde ele foi ? — perguntei.
— Parece que foi para uma fazenda aqui perto. Há quase um milhão de seguidores das naves acampados nos campos recém-arados da fazenda.
Andei de um lado para o outro no meu pequeno escritório, exasperado.
— O que será que estes malucos pensam que estão fazendo ? É a mesma coisa por toda parte; nas fazendas ninguém mais planta ou colhe, nas cidades ninguém produz mais nada. Será que eles esperam ser alimentados e vestidos por estes alienígenas, ou seja lá que diabo forem? Ou esperam que os palhaços que ainda não aderiram à sua seita continuem trabalhando eternamente para eles?
O olhar de Marcos e o eco da minha voz nas paredes fizeram com que eu percebesse o meu grau de exaltação. Sentei-me com a cabeça entre as mãos, os cotovelos apoiados na mesa, e suspirei
— Esta situação vai de mal a pior, Marcos. Onde isto tudo vai parar ? Eu estou me sentindo como se as paredes estivessem me esmagando e eu nada pudesse fazer e não tivesse para onde ir. Por que ninguém faz nada a respeito ? Nós vamos deixar eles chegarem assim, sem mais nem menos e acabarem com as nossas vidas ?
— Bem, chefe — falou Marcos — nem todo mundo está embarcando nesta onda de deslumbramento.
Levantei-me de um salto.
— Como? O que você está dizendo? Até o Exército tem ordens de só acompanhar os acontecimentos e não tomar atitude mais positiva.
— É verdade. — concordou Marcos.
— Então, homem, fale de uma vez. Você está querendo brincar comigo? Acho bom você dizer logo o que está escondendo.
Marcos aproximou-se da mesa com ares de conspiração e baixou a voz
— Já estão sendo organizados alguns grupos, chefe. Não tem nada a ver com o Exército, embora existam militares entre os seus membros. São pessoas que não acreditam nas intenções e na origem divina de quem controla as naves-carrilhão, desejam a volta do mundo à sua normalidade e estão dispostas a trabalhar e se arriscar em prol disto.
— Uma milícia civil?! Mas isto é totalmente ilegal, Marcos.
Marcos sorriu.
— Não, chefe. Não gostamos de pensar em nós mesmos como uma milícia civil. Preferimos o velho termo "Resistência".
A idéia me assustava, mas ao mesmo tempo me fascinava.
Eu teria de desertar para poder me ligar ao que Marcos chamava de Resistência, e isto me destroçava por dentro mas, por outro lado, alguém tinha que lutar pelo nosso direito de continuar a ser um mundo civilizado, em vez de nos tornarmos um bando de fanáticos babões implorando pela salvação.
— Pelo que você já me contou, é claro que você é membro ativo deste grupo. Você acha que eles aceitariam mais um participante ?
Marcos tornou a sorrir e estendeu a mão para mim.
— Claro que sim, chefe. Precisamos de todos que possam ajudar e a sua experiência vai ser de grande valia. Aperte aqui e eu o levarei hoje mesmo até os outros.
Apertei com força a mão de Marcos e ele deve ter sentido a minha pele fria e suada pela excitação.
A casa ficava num subúrbio e tinha um aspecto comum. Não houve senhas ou qualquer outro sinal de reconhecimento à nossa chegada. Marcos simplesmente bateu na porta, ela foi aberta e nós entramos. Umas 15 ou 20 pessoas já estavam reunidas em uma sala apenas mobiliada com uma mesa e várias cadeiras. Um homem que conversava junto a uma janela viu Marcos e veio até o centro da sala nos receber.
— Então, Marcos, trouxe mais um recruta hoje ?
Todos os olhos da sala me fitaram e eu me senti quase como se estivesse nu. O homem cumprimentou Marcos e estendeu sua mão.
— Eu me chamo Carlos Otávio. É um prazer tê-lo aqui.
— Sérgio Fernandes Carreiro de Barros Júnior. — respondi, apertando-lhe a mão É um prazer para mim também.
Carlos arregalou os olhos e soltou um assovio.
— Pela madrugada! Quantos vocês são, afinal? As risadas estouraram na sala.
Eu normalmente me irritava com as piadas sobre o tamanho do meu nome, mas naquelas circunstâncias eu também acabei rindo. Pelo menos alguém ainda mantinha o senso de humor, apesar de tudo.
Não houve burocracia para a minha admissão na Resistência, só exigiram de mim que guardasse silêncio quanto à organização e ao nosso trabalho. Eu passei a participar das reuniões e em poucos dias me confiaram a primeira missão.
A princípio, nada de novo para mim. Eu e Marcos nos misturamos aos fanáticos (agora perto da casa dos dois milhões) que lotavam as fazendas a uns 60 quilômetros da cidade e esperamos pela chegada de uma nave-carrilhão e pelo aparecimento de Iluminados, só que desta vez não levávamos câmaras de filmar e sim um lança-mísseis portátil. Foram cerca de dois dias e meio de espera mas ela finalmente surgiu, resplandecente no seu brilho, emitindo o som de sinos familiar a todos. A multidão foi tomada de um frenesi, todos louvando a nave e seus ocupantes e rogando para serem os escolhidos.
Em poucos minutos, o primeiro Iluminado ergueu-se da massa humana sobre a qual a nave passava pulsando e seguiu-a flutuando, o olhar parecendo ver o que ninguém mais podia. Quando seu corpo começou a brilhar e a nave parou, eu fiz sinal a Marcos para preparar a arma.
Ninguém na multidão frenética estava em condições de notar o que fazíamos e eu logo apontei o lança-mísseis e disparei o projétil direto ao bojo da nave-carrilhão. Preparamo-nos para a explosão mas o míssil foi apenas englobado pela nave e, a princípio, nada aconteceu. A sensação da derrota já me invadia quando um tremor percorreu as luzes do veiculo e o som de carrilhão pareceu vacilar. A nave tremeu e começou a subir em arrancos descontrolados, enquanto o Iluminado subitamente apagou e despencou sobre a multidão atônita.
— Vamos sair daqui, Marcos! — gritei, e comecei a me afastar rapidamente, aproveitando o aturdimento da turba.
A nave-carrilhão continuava a subir, sua luminosidade se expandia e os sons se tornavam mais ensurdecedores, já nada parecidos com um soar de sinos. Então, um grande clarão iluminou tudo num raio de vários quilômetros, acompanhado de um barulho como o de duas gigantescas mãos a baterem uma única grande palma, e a nave desapareceu.
— É — pensei, enquanto nos afastávamos — pelo menos estas naves não são preconceituosas. Hoje os "sinos da liberdade" não tocaram e brilharam apenas para seus Iluminados. Eles também brilharam para seus seguidores desamparados e para os rebeldes da humanidade.